segunda-feira, 22 de julho de 2013

"Descerrada" a placa da Rua Leonel Brizola

Aproximadamente 100 pessoas participaram do ato em frente a sede do jornal “O Globo”, na rua Irineu Marinho, no Centro do Rio de Janeiro, para a troca simbólica do nome da rua para Leonel Brizola – em homenagem a Brizola, grande desafeto do fundador das Organizações Globo, jornalista Roberto Marinho. Os manifestantes também dramatizaram o “Direito de Resposta” de Brizola a Marinho, de 1993, no Jornal Nacional – em frente a sede do jornal.
Os manifestantes se concentraram embaixo do edifício “Balança mas não cai”, na rua de Santana esquina com Presidente Vargas, e se deslocaram, ao som de uma bandinha que entoava músicas de carnaval, até a rua Irineu Marinho, tradicional sede do “Globo” há décadas, onde também funcionaram os estúdios da rádio Globo durante muito tempo.
A empresa dispensou seus jornalistas às três horas, a manifestação estava marcada para as 17 horas, e o ato transcorreu sem nenhum incidente – apesar do grande número de policiais. A PM não reprimiu a manifestação e os manifestantes, que por sua vez mantiveram-se na linha, evitando  qualquer ato de  vandalismo.
Eles percorreram tranquilamente e sem problemas os 400 metros entre a concentração e a esquina da rua Irineu Marinho com Santana, onde foi realizado o ato simbólico de “troca” de nome das ruas. No momento da “troca” os  manifestantes cantaram um jingle da campanha de Brizola à presidente presidencial de 1989, “Lá Lá Lá Brizola”.
O ato de protesto pelas posições políticas do jornal “O Globo” não foi convocado pelo PDT, mas muitos pedetistas somaram-se a ele – que foi convocado e organizado pelos militantes do Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé, que lutam pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, seção Rio de Janeiro.
Após a colocação de adesivos onde se lia Leonel Brizola sobre o nome de Irineu Marinho, houve ainda a dramatização do “direito de resposta” de Brizola à Rede Globo de Televisão lida em 93 por Cid Moreira no “Jornal Nacional”  - considerada um marco histórico na luta por uma mídia democrática no Brasil. Texto assinado por Brizola escrito por ele, Fernando Brito, Luis Augusto Erthal e Osvaldo Maneschy, 
Nota escrita a partir do texto “O dia em que a história bateu continência para Leonel Brizola” de Ana Helena Tavares, na página de internet  “Quem tem Medo da Democracia” – Ana que  também é autora das fotos e dos vídeos anexados. (OM)
Leia também o texto de Gilberto de Souza, do "Correio do Brasil"
Assista ao vídeo do momento em que nome de Brizola substituiu o de Irineu Marinho:
Veja a passeata na Rua de Santana
E baniram o home de Brizola da Biblioteca Nacional de Brasília
Recorde: nove anos sem Brizola
O movimento espontâneo pela Rua Leonel Brizola
Lenços vermelhos eram a marca registrada dos maragatos e foi com eles no pescoço que muitos dos manifestantes participaram do ato.Após a colocação de adesivos onde se lia Rua Leonel Brizola por cima das placas antigas, houve a dramatização, em frente ao jornal O Globo, da carta de direito de resposta de Brizola à Globo, lida em 93 por Cid Moreira no Jornal Nacional (cique para o vídeo) e considerada um marco na luta por uma mídia democrática.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Por que a grande mídia esconde o que interessa ao Brasil?

Fonte: OM - Carta Maior/Leandro Severo | 7 de julho de 2013

Brizola foi o inimigo número um da mídia brasileira. Seu nacionalismo, sua retidão, sua fixação pelos desfavorecidos e sua luta pela educação – além da excelente imagem pública que construiu - precisavam ser destruídos porque ele almejava a presidência. O cerco midiático foi tal que ele precisou criar os “Tijolões”, espaço pago nos grandes jornais, para tentar furar o bloqueio. Brizola combateu de peito aberto Roberto Marinho, da Globo, e os Civita da Abril, em uma luta pioneira e solitária. Hoje a luta pela democratização dos meios de comunicação do Brasil está nas ruas. Por isso é importante ler este texto, de Leandro Severo, na “Carta Maior”, explicando porque a mídia brasileira – nos momentos cruciais do país – sempre se inclinou para o golpismo e a traição aos interesses nacionais. (OM)

Em 1941, enquanto milhões de homens e mulheres derramavam seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União Soviética, a elite dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus planos para o pós-guerra. Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do petróleo John D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao presidente Roosevelt: “Independente do resultado da guerra, com uma vitória alemã ou aliada, os Estados Unidos devem proteger sua posição internacional através do uso de meios econômicos que sejam competitivamente eficazes…” (COLBY, p.127, 1998).
Seu objetivo: o domínio do comércio mundial, por meio da ocupação dos mercados e da posse das principais fontes de matéria-prima. Anos mais tarde o ex-secretário de imprensa do Congresso norte-americano, Gerald Colby, sentenciava sobre Rockefeller: “No esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América Latina com menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).
Neste mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo de comunicações que tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune, convocou os norte-americanos a “aceitar de todo o coração nosso dever e oportunidade, como a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa influência para objetivos que consideremos convenientes e por meios que julguemos apropriados” (SCHILLER, p.11, 1976). Ele percebeu, com clareza, que a união do poder econômico com o controle da informação seria a questão central para a formação da opinião pública, a nova essência do poder nacional e internacional.
Evidentemente para que os planos de ocupação econômica pelas corporações norte-americanas fossem alcançados havia uma batalha a ser vencida: Como usurpar a independência de nações que lutaram por seus direitos? Como justificar uma postura imperialista do país que realizou a primeira insurreição anticolonial?
A resposta a esta pergunta foi dada com rigor pelo historiador Herbert Schiller: “Existe um poderoso sistema de comunicações para assegurar nas áreas penetradas, não uma submissão rancorosa, mas sim uma lealdade de braços abertos, identificando a presença norte-americana com a liberdade – liberdade de comércio, liberdade de palavra e liberdade de empresa. Em suma, a florescente cadeia dominante da economia e das finanças norte-americanas utiliza os meios de comunicação para sua defesa e entrincheiramento onde quer que já esteja instalada e para sua expansão até lugares onde espera tornar-se ativa” (SCHILLER, p.13, 1976).
Foi exatamente ao que seu setor de comunicações se dedicou. Estava com as costas quentes, já que as agências de publicidade norte-americanas cuidavam das marcas destinadas a substituir as concorrentes europeias arrasadas pela guerra. O setor industrial dos EUA havia alcançado um vertiginoso aumento de 450% em seu lucro líquido no período 1940-1945, turbinado pelos contratos de guerra e subsídios governamentais. Com esta plataforma invadiram a América Latina e o mundo.
Com o suporte do coordenador de Assuntos Interamericanos (CIIA), Nelson Rockefeller, mais de 1.200 donos de jornais latinos recebiam, de forma subsidiada, toneladas de papel de imprensa, transportada por navios norte-americanos. Além disso, milhões de dólares em anúncios publicitários das maiores corporações eram seletivamente distribuídos. É claro que o papel e a publicidade não vinham sozinhos, estavam acompanhados de uma verdadeira enxurrada de matérias, reportagens, entrevistas e releases preparadas pela divisão de imprensa do Departamento de Estado dos EUA.
A vontade de conquistar as novas “colônias” e ocupar novos territórios como haviam feito no século anterior, no velho oeste, não tinha limites. No Brasil, circulava desde 1942, a revista Seleções (do Reader’s Digest), trazida por Robert Lund, de Nova Iorque. A revista, bem como outras publicações estrangeiras, pagou os devidos direitos aduaneiros por se tratar de produtos importados, mas solicitou, e foi atendida pelo procurador da República, Temístocles Cavalcânti, o direito de ser editada e distribuída no Brasil, com o argumento de ser uma revista sem implicações políticas e limitada a publicar conteúdos culturais e científicos. Assim começou a tragédia.
Logo chegou o grupo Vision Inc., também de Nova Iorque, com as revistas Visão, Dirigente Industrial, Dirigente Rural, Dirigente Construtor e muitos outros títulos que vinham repletos de anúncios das corporações industriais. Um fato bastante ilustrativo foi o da revista brasileira Cruzeiro Internacional, concorrente da Life International, que apesar de possuir grande circulação, nunca foi brindada com anúncios, enquanto a concorrente norte-americana anunciava produtos que, muitas vezes, nem sequer estavam à venda no Brasil.
Ficava claro que os critérios até então estabelecidos para o mercado publicitário, como tempo de circulação efetiva, eficiência de mensagem e comprovação de tiragem, de nada adiantavam. O que estava em jogo era muito maior.
Um papel importantíssimo na ocupação dos novos mercados foi desempenhado pelas agências de publicidade norte-americanas. McCann-Erickson e J. Walter Thompson eram as principais e tinham seu trabalho coordenado diretamente pelo Departamento de Estado. Para se ter uma ideia, a McCann-Erickson, nos anos de 1960, possuía 70 escritórios e empregava 4.619 pessoas, em 37 países, já a J. Walter Thompson tinha 1.110 funcionários, somente na sede de Londres. Os Estados Unidos tinham 46 agências atuando no exterior, com 382 filiais. Destas 21 agências em sociedade com britânicos, 20 com alemães ocidentais e 12 com franceses. No Brasil atuavam 15 agências, todas elas com instruções absolutamente claras de quem patrocinar.
No início dos anos de 1950, Henry Luce, do grupo Time-Life, já estava luxuosamente instalado em sua nova sede de 70 andares na área mais nobre de Manhattan, negócio imobiliário que fechou com Nelson Rockefeller e seu amigo Adolf Berle, embaixador norte-americano no Brasil na época do primeiro golpe contra o presidente Getulio Vargas. Luce mantinha fortes relações com os irmãos César e Victor Civita, ítalo-americanos nascidos em Nova Iorque. César foi para a Argentina em 1941 onde montou a Editorial Abril, como representante da companhia Walt Disney, já Victor, em 1950, chega ao Brasil e organiza a Editora Abril. Neste mesmo período seu filho, Roberto Civita, faz um estágio de um ano e meio na revista Time, sob a tutela de Luce e logo retorna para ajudar o pai.
Poucos anos depois, o mercado editorial brasileiro está plenamente ocupado por centenas de publicações que cantavam em prosa e verso o american way of life. Somente a Abril, financiada amplamente pelas grandes empresas norte-americanas, edita diversas revistas: Cláudia, Quatro Rodas, Capricho, Intervalo, Manequim, Transporte Moderno, Máquinas e Metais, Química e Derivados, Contigo, Noiva, Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Almanaque Tio Patinhas, a Bíblia mais bela do mundo, além de diversos livros escolares.
Em 1957, uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, comprova que O Estado de S.Paulo, O Globo e Correio da Manhã foram remunerados pela publicidade estrangeira para mover campanhas contra a nacionalização do petróleo.
Em 1962, o grupo Time-Life encontra seu parceiro ideal para entrar de vez no principal ramo das comunicações, a televisão. A recém-fundada TV Globo, de Roberto Marinho. Era uma estranha sociedade. O capital da Rede Globo era de 600 milhões de cruzeiros, pouco mais de 200 mil dólares, ao câmbio da época. O aporte dado “por empréstimo” pela Time-Life era de 6 milhões de dólares e a empresa tinha um capital 10 mil vezes maior.
Como denunciou o deputado João Calmon, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert): “Trata-se de uma competição irresistível, porque além de receber 8 bilhões de cruzeiros em 12 meses, uma média de 700 milhões por mês, a TV Globo recebe do grupo Time-Life três filmes de longa metragem por dia – por dia, repito… Só um package, um pacote de três filmes diários durante o ano todo, custa na melhor das hipóteses, 2 milhões de dólares” (HERZ, p.220, 2009).
O Brasil e o mundo estão em efervescência. A tensão é crescente com revoluções vitoriosas na China e em Cuba. A luta pela independência e soberania das nações cresce em todos continentes e os EUA colocam em marcha golpes militares por todo o planeta. A Guerra Fria está em um ponto agudo.
É nesse quadro que a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Congresso dos EUA, em abril de 1964, no relatório “Winning the Cold War. The O.S. Ideological Offensive” define:
“Por muitos anos os poderes militar e econômico, utilizados separadamente ou em conjunto, serviram de pilares da diplomacia. Atualmente ainda desempenham esta função, mas o recente aumento da influência das massas populares sobre os governos, associado a uma maior consciência por parte dos líderes no que se refere às aspirações do povo, devido às revoluções concomitantes do século 20, criou uma nova dimensão para as operações de política externa. Certos objetivos dessa política podem ser colimados tratando-se diretamente com o povo dos países estrangeiros, em vez de tratar com seus governos.
Através do uso de modernos instrumentos e técnicas de comunicação, pode-se hoje em dia atingir grupos numerosos ou influentes nas populações nacionais – para informá-los, influenciar-lhes as atitudes e, às vezes, talvez, até mesmo motivá-los para uma determinada linha de ação. Esses grupos, por sua vez, são capazes de exercer pressões notáveis e até mesmo decisivas sobre seus governos” (SCHILLER, p.23, 1976).
A ordem estava dada: “informar”, influenciar e motivar. A rede está montada, o financiamento definido.
O jornalista e grande nacionalista, Genival Rabelo, exatamente nesta hora, denuncia no jornal Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro: “Há, por trás do grupo [Abril], recursos econômicos de que não dispõem as editoras nacionais, porém muito mais importante do que isso está o apoio maciço que a indústria e as agências de publicidade norte-americanas darão ao próximo lançamento do Sr. Victor Civita, a exemplo do que já fizeram com as suas 18 publicações em circulação, bem como as revistas do grupo norte-americano Vision Inc.” (RABELO, p.38, 1966)
Mas é necessário mais. É preciso enfraquecer, calar e quebrar tudo que seja contrário aos interesses dos monopólios, tudo que possa prejudicar os interesses das corporações. A General Electric, General Motors, Ford, Standard Oil, Du Pont, IBM, Dow Chemical, Monsanto, Motorola, Xerox, Johnson & Johnson e seus bancos J. P. Morgan, Citibank, Chase Manhattan precisam estar seguros para praticar sua concorrência desleal, para remeter lucros sem controle, para desnacionalizar as riquezas do país se apossando das reservas minerais.
Várias são as declarações, nesta época, que deixam claro qual o caminho traçado pelos EUA. Nas palavras de Robert Sarnoff, presidente da RCA – Radio Corporation of America – “a informação se tornará um artigo de primeira necessidade equivalente a energia no mundo econômico e haverá de funcionar como uma forma de moeda no comércio mundial, convertível em bens e serviços em toda parte” (SCHILLER, p.18, 1976). Já a Comissão Federal de Comunicações (FCC), em informe conjunto dos Ministérios do Exterior, Justiça e Defesa, afirmava: “as telecomunicações evoluíram de suporte essencial de nossas atividades internacionais para ser também um instrumento de política externa” (SCHILLER, p.24, 1976).
É esclarecedor o pensamento do delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas, vice-ministro das Relações Exteriores, George W. Ball, em pronunciamento na Associação Comercial de Nova Iorque:
“Somente nos últimos 20 anos é que a empresa multinacional conseguiu plenamente seus direitos. Atualmente, os limites entre comércio e indústria nacionais e estrangeiros já não são muito claros em muitas empresas. Poucas coisas de maior esperança para o futuro do que a crescente determinação do empresariado norte-americano de não mais considerar fronteiras nacionais como demarcação do horizonte de sua atividade empresarial” (SCHILLER, p.27, 1976).
A ação desencadeada pelos interesses externos já havia produzido a falência de muitos órgãos de imprensa nacionais e, por outro lado, despertado a consciência de muitos brasileiros de como os monopólios utilizam seu poder de pressão e de chantagem. Em 1963, o publicitário e jornalista Marcus Pereira afirmava em debate na TV Tupi, em São Paulo: “Em última análise, a questão envolve a velha e romântica tese da liberdade de imprensa, tão velha como a própria imprensa. Acontece que a imprensa precisa sobreviver, e, para isso, depende do anunciante. Quando esse anunciante é anônimo, pequeno e disperso não pode exercer pressão, por razões óbvias. É o caso das seções de ‘classificados’ dos jornais. Mas poucos jornais têm ‘classificados’ em quantidade expressiva. A maioria dos jornais e a totalidade das revistas vivem da publicidade comercial e industrial, dos chamados grandes anunciantes. Acho que posso parar por aqui, porque até para os menos afoitos já adivinharam a conclusão” (RABELO, p.56, 1966).
Não é difícil perceber o quanto a submissão aos interesses econômicos estrangeiros levou a dita “grande mídia” brasileira a se afastar da nação. A se tornar, ao longo dos anos, em uma peça chave da política do Imperialismo. Em praticamente todos os principais momentos da vida nacional se inclinaram para o golpismo e a traição. Já no primeiro golpe contra Getúlio, depois, contra sua eleição, contra sua posse, contra a criação da Petrobras, contra a eleição de Juscelino, contra João Goulart, contra as reformas de base, apoiando a Ditadura, apoiando a política econômica de Collor, apoiando Fernando Henrique e suas privatizações, atacando Lula.
Hoje, ela novamente tem lado: o das concessões de estradas, portos e aeroportos, o dos leilões de privatização do petróleo e da necessidade da elevação das taxas de juros, do controle do déficit público com evidentes restrições aos investimentos governamentais, ou seja, da aceitação de um neoliberalismo tardio.
Porque atuam desta forma? Genival Rabelo deu a resposta: “Um industrial inteligente desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro me fez outro dia, esta observação, em forma de desafio: ‘Dou-lhe um doce, se nos últimos cinco anos você pegar uma edição de O Globo que não estampe na primeira página uma notícia qualquer da vida norte-americana, dos feitos norte-americanos, da indústria norte-americana, do desenvolvimento científico norte-americano, das vitórias e bombardeios norte-americanos. A coisa é tão ostensiva que, muita vez, sem ter o que publicar sobre os Estados Unidos na primeira página, estando o espaço reservado para esse fim, o secretário do jornal abre manchete para a volta às aulas na cidade de Tampa, Miami, Los Angeles, Chicago ou Nova Iorque. Você não encontra a volta às aulas em Paris, Nice, Marselha, ou outra cidade qualquer da França, na primeira página de O Globo, porque, de fato, isso não interessa a ninguém. Logo, não pode deixar de haver dólar por trás de tudo isso…’
Outro amigo presente, no momento, e sendo homem de publicidade concluiu, deslumbrado com seu próprio achado: ‘É por isso que O Globo não aceita anúncio para a primeira página. Ela já está vendida. É isso. É isso!’. ‘E muito bem vendida, meu caro – arrematou o industrial – A peso de ouro’ “ (RABELO, p.258, 1966).
(*) Leandro Severo é delegado à Conferência Nacional de Comunicação, Secretário Municipal de Comunicação em São Carlos entre 2007 e 2012 e membro do Partido Pátria Livre.

Referências
COLBY, G; DENNETT, C. Seja feita a vossa vontade: a conquista da Amazônia, Nelson Rockefeller e o evangelismo na idade do Petróleo. Tradução: Jamari França. Rio de Janeiro: Record, 1998.
HERZ, D. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Dom Quixote, 2009. Coleção Poder, Mídia e Direitos Humanos.
RABELO, G. O Capital Estrangeiro na Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
SCHILLER, H. I. O Império norte-americano das comunicações. Tradução: Tereza Lúcia Halliday Petrópolis: Vozes, 1976.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Flávio Tavares - "Brizola foi um estadista"

Das muitas histórias que Leonel Brizola me contou no exílio, em meio aos mútuos segredos que a luta de resistência à ditadura nos levava a confessar um ao outro e a esquecer no instante seguinte (e, assim, nada revelar jamais, caso nos prendessem e torturassem), uma delas permanece intacta em minha memória.
Ele tinha pouco menos de dois anos de idade, morava no interior de Carazinho, no campo, quando divisou o cavalo em que o pai tinha saído de viagem no dia anterior, naquele final de 1923.
- Lentamente, o cavalo se aproximou, cansado, cabeça baixa e, passo a passo, parou junto à casa. Minha mãe abriu a porta e gritou, num grito espantado de dor, mais grunhido do que outra coisa, em berros cada vez mais fortes. Tive medo mas não chorei, e me agarrei no vestido da minha irmã mais velha para me proteger daqueles gritos. Minha mãe gritava e eu não via nada. Só o cavalo parado ali. Parado e triste.
O menininho Leonel não podia entender que a mãe gritava exatamente porque também não via nada. O cavalo voltara sozinho e sem ninguém, dando o aviso de que o cavaleiro fora morto e o cadáver estava lá longe, no campo. Eram os dias seguintes à Revolução de 1923, já com o armistício assinado entre os rebeldes maragatos e o governo, mas a paz ainda não voltara aos campos e o ódio da guerra continuava pelo Rio Grande afora. O pai, um maragato, era o cavaleiro e fora assassinado por vingança. A triste vingança dos vencedores sobre os vencidos.
- Aqueles dias foram terríveis mas minha mãe nos ensinou a não recorrer à vingança, Félix! - concluiu Brizola, chamando-me pelo nome de guerra que ele próprio me dera e que usávamos em todos os momentos da clandestina resistência armada.
Cumplicidade
Recordo o episódio agora, ao evocar o que ele foi para buscar defini-lo. Os adjetivos que definem a personalidade de Brizola são muitos, mas para explicar porque se transformou em líder e porque sobreviverá na História, bastam dois: audácia e paixão.
A partir de 1952, nos meus 18 anos, ele ainda deputado estadual, a nossa convivência foi sempre próxima, mesmo nos breves tempos em que as posições políticas nos separaram, como em 1955, na eleição que o levou à prefeitura de Porto Alegre. Em 1961, na campanha pela posse de João Goulart na Presidência da República - que ele organizou e comandou -, permaneci a seu lado (como muitos outros) durante 24 horas ao dia, ao longo de uma semana, revólver à cintura e sem jamais dormir. Pela primeira vez, vi então como a sua audácia brotava da paixão, transformando a palavra na luz de um relâmpago contínuo que jamais se apagava. A sua palavra, que a Rádio da Legalidade difundia pelo país inteiro, mobilizou multidões, derrotou o golpe militar e Jango pôde voltar ao Brasil para assumir a Presidência.
Só após o golpe militar de 1964, nos anos da luta de resistência à ditadura, porém, fui conhecê-lo de corpo inteiro. Primeiro, ele no exílio no Uruguai e eu em Brasília, viajando incógnito para, na clandestinidade, tramar a conspiração nos tempos do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), do qual ele era o comandante político e eu o coordenador operacional do Planalto Central e norte do Brasil. Conheci, então, o minucioso Brizola que me ensinou como me comunicar por uma seqüência de números e letras, por meio de uma "palavra-chave", indecifrável até pelos melhores decodificadores criptográficos. Mais tarde, concluída e abandonada a etapa da resistência armada à ditadura, eu próprio fui também um exilado. E em Lisboa, de 1978 a 1979, chegamos a morar no mesmo hotel, nos dois anos anteriores à anistia política que nos fez retornar ao Brasil.
Tive, então, novos descobrimentos: além da antiga cumplicidade da luta armada, houve a intimidade familiar, com a sua netinha Laila e meu filho Camilo brincando juntos e se misturando às crianças portuguesas, sob o incentivo de Neuza Goulart Brizola, que funcionava como avó de ambos.
Ao contrário do que se pensava no Brasil, percebi que Brizola era um ouvinte atento, que prestava atenção a tudo o que dizia o interlocutor, mesmo parecendo desinteressado. Foram os anos em que "o grupo de Lisboa" o ajudou a abrir-se às novas correntes do socialismo não-autoritário, para que "o novo trabalhismo" não ficasse estancado no getulismo, por maior estadista que tenha sido Getúlio Vargas. Nesse período, o português Mário Soares e o alemão Willy Brandt entram na vida de Brizola e, com paixão, ele descobre Marx, mas sem adotar os padrões do marxismo rígido de uma época ainda dominada pela hegemonia doutrinária da União Soviética em boa parte da esquerda.
Lembro-me da paixão com que contou que Willy Brandt o levara a conhecer a casa onde Marx nasceu na Alemanha, perto da fronteira da Holanda:
- Tudo intacto, talvez tenha sido recomposto, mas até os livros de Marx lá estão! - disse-me no seu pequeno apartamento do Hotel Flórida. Nesse dia de 1978, em Lisboa, chamou-me outra vez de "Félix", o antigo codinome que ele me dera em 1965 em Montevidéu, e que já não usávamos há anos.
Estranho, no final de 1979, na derradeira reunião com o "grupo de Lisboa" antes de que viajasse a Nova York para, de lá, regressar ao Brasil, outra vez me tratou pelo antigo "nome de guerra", totalmente em desuso. Tão em desuso que, depois, nos 24 anos de retorno ao Brasil permaneceu esquecido.
Neste 2004, porém, na noite de 31 de maio, Brizola compareceu a uma livraria de Ipanema, no Rio, para a sessão de lançamento do meu livro, o seu último ato público (dois dias depois foi ao Uruguai e de lá voltou infartado). Algo estranho ocorreu. Ele, que antes era sempre o último a chegar, chegou antes de mim e foi recebido pelo meu filho Camilo, "o mágico", como ele o chamou, lembrando-se das brincadeiras de criança em Lisboa. Quando apareci e fiz a pergunta clássica de "como vai?", mostrou que a velha paixão continuava:
- Olha, Félix, nesta altura da vida, ando meio cansado, mas até estou bem no cansaço, pois significa que sigo batalhando e não me calo.
Todos estranharam o tratamento de "Félix" e eu tive de explicar que não era um lapso da idade, mas uma reminiscência dos tempos difíceis. Três horas depois, na despedida, Brizola outra vez me chamou de "Félix" e o tomei como amistosa deferência. Só agora, vejo que era uma forma inconsciente de despedida. O comandante se despedia do soldado, com a senha secreta de combatente.
Ele é insubstituível até no jeito terno da despedida. Não apenas na forma de fazer política, com franqueza, dizendo o que pensava, sem farisaísmos nem simulações, sempre com uma solução concreta ao que apontava com a palavra. Às vezes, com isso até perdia votos, pois nunca foi um caçador de votos, nem um político de palavrório oco.
Foi um estadista.
(Texto publicado na Zero Hora em 29/6/2004 sob o título "Codinome Félix")

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Kolecza: O tesouro que ele nos legou

Por Carlos Alberto Kolecza - O legado ideológico de Leonel Brizola repousa nas camadas ainda lúcidas da entrevada memória brasileira à espera de um lampejo do instinto de sobrevivência. Não pode ser incontornável a perda da consciência de dignidade de um povo.
Contra todas as expectativas agourentas, aqui estamos, obrigados à reflexão impensável de como será o Trabalhismo sem Brizola. Brizola não chegou lá, mas graças à sua clarividência e determinação somos os herdeiros do maior tesouro político do Brasil, a doutrina trabalhista. Só por isso, Brizola tem direito a figurar na galeria dos patronos de formação da consciência de cidadania. Depende de nós a preservação do acervo vivo de pensamentos e sentimentos que ainda fará o Brasil acontecer como nação de todos os brasileiros.
O Trabalhismo de Getúlio, Pasqualini, Jango, Brizola, Darcy e milhões de anônimos, projetou o Brasil na modernidade, e ainda pode evitar que afunde na barbárie. Há, porém, um problema além de nossas possibilidades. O patrimônio de idéias de nossos pensadores e as realizações de nossos estadistas de nada vale contra a intenção das elites de consumarem o apartheid social.
A proibição secreta
Desde 64 o Trabalhismo está proibido de subir a rampa, uma das tantas decisões secretas dos operadores da "máquina de distribuição de renda para cima" (1), o sistema multissecular de privilégios e injustiças causador de um dos mais perversos índices de exclusão social do mundo. Contra o trabalhismo movem-se sempre os fantoches dos responsáveis pela desintegração social, a perda do sentido de vida coletiva. Sabem, até mais que nós, do que é capaz o Trabalhismo para salvar outro tesouro em perigo, nossa identidade de povo. Além de nós, alguém mais sabe contra quem foi o golpe? Contra mais ninguém.
As forças que arrastaram Getúlio ao suicídio e derrubaram Jango apaisanaram-se e prolificaram. Em vez de metralhadoras disparam teorias recauchutadas dos canudos de seus doutorados. Nas casamatas VIPs da sapiência, fabricaram um repelente spray antipovão - o populismo - , sofisticaram o servilismo e legitimaram a exclusão. Perfumaram com fragrâncias contrabandeadas os preconceitos mais perversos e as discriminações mais iníquas. Transplantaram para os salões da política o manual de bons modos da casa-grande como prêmio à subserviência. Aposentaram os limpa-botas e promoveram a gurus os office-boys dos barões da trambicagem financeira.
Solitário, de peito aberto como sempre, Brizola desnudou o choque de neocolonização que homologou a quebra da estratégia de desenvolvimento, o retrocesso dos avanços sociais, a leiloagem do interesse nacional e a revogação do bem comum. Carta Testamento em punho, amaldiçoou a promessa sinistra de FHC do fim da Era Vargas, o desmonte peça por peça do imenso cabedal trabalhista de ações e desenvolvimento e de solidarismo. Poucos perceberam, na trama lesa-pátria, a proscrição do trabalhismo como projeto - e único - de desenvolvimento com justiça social.
Estamos proibidos de influir nas decisões porque somos inconfiáveis aos artífices do sistema informal de castas em silenciosa implantação, que rebaixa a maioria à categoria de subcidadãos. Querem nos impedir de denunciar a fabricação de ignorância e intolerância, as matérias primas da desestabilização social. O trabalhismo funde a justa indignação diante das mazelas da desigualdade e a inabalável convicção de que um país com tantos recursos tem que dar certo. A discriminação que sofre é a extensão da que aprisiona o Brasil na dependência e empurra o brasileiro para a marginalidade.
A estética da segregação
Tentam nos ferir no que temos de mais forte, a autenticidade. Sim, somos o partido dos Agenor, dos João e José, dos Silva, das Maria, Margareth e Filomena, e nos orgulhamos de filiados, militantes e eleitores tão ilustres. Não somos "meio antigos", viemos de longe. Benditos representantes dos milhões de deserdados que confiam em nós porque ouviram falar de Getúlio, Jango e Brizola. Não podemos trair essa confiança.
De que lado estão os que gratuitamente debocham dos trabalhistas e brizolistas em nome de um código estético segregacionista? Trocaram a ética pela estética? Ou não é tão gratuitamente assim que debocham? Saibam ou não, estão do lado dos 82 coronéis do Exército que derrubaram o ministro do Trabalho em 1954 sob a alegação de que a duplicação do salário mínimo esvaziaria os quartéis. Precisam dos Agenor e das Filomena para destilar racismo social assim como os coronéis, generais em 64, necessitavam de soldados desnutridos e analfabetos para dar ordens absurdas. Em tempo, o presidente que os generais derrubaram em 64 era o ministro do Trabalho em 54: João Goulart.
Temos que ser sinceros com os que pretendem juntar-se a nós. Devem saber de nossa condição de malsinados e das provações que os esperam. Há lugar para tudo e todos no jogo jogado lá em cima, menos para um partido nacionalista. Repararam como Cristovam Buarque foi ridicularizado nas entrevistas durante a campanha presidencial? Assistiram à reprise do deboche do "candidato de uma nota só" por parte de um apresentador global? Por que a alergia da grande mídia à educação como prioridade? A direita ditabranda não tem mais pudor de mostrar a cara no jornalismo. Quem sabe não é esse o nosso caminho da roça?
A deserção da classe média
A proscrição do Trabalhismo coincide com o colapso induzido da identificação da classe média com os valores brasileiros, primeiro estágio da ruptura dos laços de solidariedade social. O medo torra os neurônios e envenena os hormônios da classe média. Temerosa da perda de status com a ascensão de novos contingentes, ela se conforma com a função de massa de manobra do terrorismo emocional da grande mídia. O casamento do conservadorismo da classe média com o reacionarismo das elites turbinou a estratégia dos Estados Unidos de dizimar os movimentos de emancipação do Terceiro Mundo com golpes militares.
De lá para ca, trancafiada em sua gaiola de latão dourado, presa aos fetiches primeiro-mundistas, cega e surda ao que acontece à sua volta, a classe média impermeabilizou-se ao diálogo. Desertou do Brasil. Não sente falta de debate público e renunciou ao livre pensamento. Esconde que acredita na eficácia da tortura e na terapia de grupo dos esquadrões de morte, desde que aplicadas exclusivamente nas vilas e favelas. Não por acaso a direita semeia e colhe a super safra da discriminação dos pobres nos espaços interditados ao trabalhismo.
Não dá pé a gosma de preconceitos e discriminações em que bóia a classe média à procura de onde se agarrar. Cúmplice e também vítima da fabricação em massa de ignorância, mete a mão em qualquer arapuca política. Vibrou com o Homem da Vassoura, atirou-se nos braços do Caçador de Marajás, encantou-se com o charme "intelectual" de FHC, por um triz não votou na governadora do Estado campeão de analfabetismo. Sempre disponível a porra-louquices, leiloaria a Amazônia em troca de uma passagem a Disneylândia.
Nacionalismo? Coisa de museu. Interesse nacional? Desde que a Rede Globo diga qual. Espírito público? O que é? Integridade? Tem a ver com propriedade? Educação acima de tudo? Desde que não se gaste com escolas e professores. Bem comum? O meu. Quinze anos antes, a classe média estava pronta para a farra da privatização em troca de um celular. A classe média é o gato que ruge contra as propostas de integração entre o Brasil Legal e o Brasil Real.
O muro da intolerância
A desgraça de brasileiro desconfiar um do outro respinga do mal-estar da classe média com o Brasil a não ser com o luxo da empregada "de preferência que durma no emprego". Secou o sentimento de pertencimento a um mesmo destino. Ela, que deveria dar o exemplo, para cima e para baixo, deixou de se reconhecer como elo de coesão social. Camufla o racismo na reação à cota e disfarça a aprovação a campanhas genocidas contra pobres, índios e adolescentes. Qualquer idéia maluca encontra espaço no travesseiro da classe média. Após a reeleição, a análise da vantagem eleitoral de Lula no Nordeste, uma formadora de opinião global deu o bote no ar: "Não está na hora de separar?" Foi um arroto do pensamento oculto enrustido nas leis secretas do apartheid.
Brizola trombou no muro de intolerância que substituiu as grades da truculência. Nele foi personalizada, a ferro e fogo, a mesma discriminação reservada a quem carrega na pele ou na origem social a tatuagem infame da rejeição. A determinação na luta pelas idéias republicanas de igualdade foi estigmatizada como radicalismo; a capacidade de priorizar o bem comum como demagogia; a lealdade à soberania nacional como xenofobia; o espírito público como caudilhismo; o estadista como estatista. A integridade inatacável nunca inspirou um gesto de reconhecimento de seus detratores.
Assim como Getúlio e Jango, foi vilipendiado por sua fidelidade ao ideal de justiça social, não por seus defeitos ou erros.
Os fios cruzados da história
Lembra de Brizola quem acredita no Brasil e vice-versa. Brasil e Brizola estão atados um ao outro pelos fios cruzados da história. Ao se tocar em um, o outro retesa. Era o xamã de um culto cívico que devolvia instantaneamente a alegria de viver num país maravilhoso e conviver com gente boa. Batizou-nos e crismou-nos na crença de que podíamos com nossos braços e nossa inteligência colocar o Brasil nos trilhos sem pedir benção ou licença de fora. Oficiava a fé sagrada sem a qual nenhum povo constrói o direito de assentar sua originalidade entre os demais.
Parecia um ser mitológico capaz de prodígios impossível e de provar que outros tantos estavam ao nosso alcance desde que confiássemos em nós mesmos.
Olho no olho, reacendia em volta o sentimento perdido de irmandade. A reação de quem chegava era de assuntar porque ninguém mais falava coisas tão simples e verdadeiras. Com o tempo e por conta própria descobríamos que a verdade é o bem público mais escamoteado do Brasil. A película de democracia encobre a injustiça de exclusão, inclusive do Trabalhismo. Não havia diferença entre o que dizia e o que fazia. Atrasava um compromisso quando nos sentia em dúvida e seus olhos faiscavam ao formar a roda de pensação.
Nasceu com um defeito - não tinha medo. Dobrou os chefes militares na Legalidade mas naquele momento os donos do poder decidiram jamais sentar-se com ele para acertar um pacto social de inclusão. A fio de baioneta, tiveram duas décadas de prazo para ossificar o imaginário da exclusão. A pirâmide social rachou de alto a baixo e a pergunta dele bate forte na consciência: por que com tanta riqueza à vista o Brasil não dá certo?
O Mandato
Já lamentamos o suficiente que ele não tenha chegado aonde queríamos. Caímos na real, perdemos o grande mensageiro, não a mensagem. O Trabalhismo precisa mergulhar no caos da perda do amor próprio de nossa gente, com humildade, para entender as causas do desânimo, da indiferença, do cinismo, da agressividade, do descaso com o que é de todos. Descascou o ovo da serpente. A degeneração da política, a corrupção desenfreada, a permissividade escancarada, o que tem a ver com a transgressão de todas as normas e a banalização da violência? Que laço se rompeu na relação de confiança de baixo para cima que dilacerou valores e referências? A deslealdade de cima para baixo esfrangalhou a lealdade de um com o outro, de todos com todos.
Até que ponto nos contamina a doença maligna que corrói a alma do brasileiro, que não será debelada com donativos sociais, ainda que imprescindíveis nas atuais circunstâncias?
Não dispomos mais, a qualquer hora, dos conselhos dele mas carregamos conosco, com a legitimidade que só dele emanava, o mandato que nos delegou:
"Nós temos a nossa responsabilidade com a história. Nosso partido é o único com determinação de assumir as grandes causas nacionais. Nenhum partido é tão nacionalista quanto o nosso. Queremos um país desenvolvido, autônomo, independente. Queremos libertar o povo brasileiro em matéria de oportunidade, de acesso a uma vida digna. O Trabalhismo nasceu na Revolução de 30, de uma inspiração do presidente Getúlio Vargas, que foi evoluindo de acordo com o processo social, empenhado em garantir direitos à massa dos deserdados... Nós temos genética, somos uma grande sementeira de ideias em benefício do povo brasileiro. Temos que estar sempre onde está o povo. Existimos para dar voz aos que não tem voz. Nossa ancoragem é a área deserdada da população. Nosso guia é o interesse público e o bem comum. Há muito preconceito contra nós. Podem dizer e fazer o que quiserem contra nós, mas gente de vergonha na cara nunca fica quieta quando é questionada.... Graças a Deus somos um partido pequeno. O que adianta ser grande no tamanho e não fazer nada?"
Somos fracos em quantidade e fortes em qualidade. Aprendemos com ele a não ter vergonha de ser brasileiro nem medo de povo. Notaram que povo, pátria, nação, nacionalidade, nacionalismo, são palavras que sumiram dos jornais e dos discursos? Estamos em muito boa companhia na relação dos sentimentos refugados pela patrulha ideológica da estética da exclusão.
Era de "bom tom" negar escola aos filhos dos pobres até Brizola rebentar o cadeado da discriminação. Entraria na história, lépido e faceiro, de braços com a meninada, pelo portão de milhares de brizoletas e brizolões, se mais não fizesse. E fez muito no enfrentamento de oligarquias e oligopólios. E por isso era ainda mais perigoso. A história lhe abriria as portas pelo que disse na hora em que era de "bom gosto" calar. O "bom tom" de hoje, de democratizar a ignorância, vai perdurar até surgir outro visionário trabalhista. Qualquer programa de reeducação em massa, de emergência ou permanente, será inócuo sem o selo de qualidade do trabalhismo.
O veto das elites originou-se da obstinação de Brizola com a educação. Um sonho subversivo guiava Brizola, inspirado na saga do menino pobre que rondava escolas entre um biscate e outro. Intuiu que cabe aos filhos da pobreza a missão de civilizar as elites trogloditas.
A dissolução social
Até a derrapagem mundial, avançava a economia da importação de crescimento e exportação do lucro, e regredia a ética do Brasil Legal em relação ao Brasil Real. O PIB do poder não precisou desemperrar as fronteiras sociais, a não ser nos pontos de passagem da fila de emprego. Crescer para dentro é a receita trabalhista.
A reação à cota na universidade explicitou a cumplicidade da intelectualidade com a cronificação da desigualdade. Recomeçou a pressão por reformas para trás. A cargo da grande mídia - as cadeias de jornal, rádio e TV - a agenda do apartheid desdobra pontualmente as etapas de estranhamento e animosidade entre os do meio e os de baixo. Os do meio aprendem a se alhear da realidade, a suspeitar de pobres, a se desligar do ambiente subjetivo comum e a curtir um estilo de vida exótico.
Os de baixo são ensinados a se julgar inferiores, incapazes de assimilar os códigos de compreensão da realidade. Em retribuição à aceitação da sina sem-nada podem comparar dinheiro a longo prazo e juros estratosféricos nos bancos disfarçados de lojas de eletrodomésticos. Os de cima comemoram a separação dos brasileiros.
Dia a dia, a consciência social vai embotando, a capacidade de pensar encolhendo. "Fomos perdendo a condição de país lúcido" (2). A grande mídia cozinha o caldo do diabo em fogo colorido, à espera da hora de jogar a culpa da criminalidade nos pobres. Vem aí o mega-espetáculo da guerra civil social.
Brizola detectou a conivência da monstruosa engrenagem de desinformação com a dissolução social. Sacou a manha da estratégia de desconstrução da vontade pública e implantação em seu lugar da opinião pública prefabricada. Sua última grande investida contra a ditadura da palavra ainda será reconhecida como precursora da causa da democratização da informação. Investigou a interdição do espaço público ao debate e flagrou a intimidade dos barões da imprensa com a fina flor da pilantragem financeira. Em represália, foi catalogado como um fóssil vivo da política. O muro de lá caiu, a esquerda retrocedeu em pânico e em parte se vendeu. Só Brizola continuou forcejando contra os muros intocáveis daqui, ermitão solitário pregando no deserto os mandamentos da brasilidade.
Não faz muito, nós mesmos vacilamos diante do falso dilema socialismo X Trabalhismo. Não prestamos atenção quando falou que o Trabalhismo é o socialismo caboclo,moreno, mulato, mestiço. Escapamos da reforma ideológica meia sola.
Do reconhecimento dos direitos sociais à montagem da infraestrutura de desenvolvimento o Brasil chegou até aqui podendo ser ainda mais pelas mãos do Trabalhismo. No balaio da memória social não há outra opção à exclusão.
Não podemos esquecer que a execração que penamos tem outro destinatário - o povo brasileiro - e isso deve nos orgulhar em vez de abater. Andamos desanimados mas não podemos baixar a cabeça. Nossa melhor homenagem a Brizola nesta hora é a reflexão sobre tudo que o Trabalhismo deu ao Brasil e aos brasileiros e o muito que ainda oferece como sementeira das idéias de igualdade. Estamos proibidos de subir a rampa, não de ajudar o povo a se organizar.

(1) Definição do historiador Thomas Skidmore para o modelo político-econômico histórico do Brasil.
(2) Consequência - segundo Brizola - da contínua lavagem ideológica a que a população é submetida.

(*) Carlos Alberto Kolecza é jornalista

terça-feira, 25 de junho de 2013

Vieira da Cunha: "Brizola, antes de tudo, era um patriota"

A notícia da morte do Governador Leonel de Moura Brizola encontrou-me na distante cidade de Pequim, na China, onde, participava da missão oficial do Estado do Rio Grande do Sul naquele país. Eram cerca de 8h25min da manhã, em Pequim - 9h25min da noite, no Brasil -, o Governador Leonel Brizola havia falecido há poucos minutos, e o seu assessor de imprensa, Fernando Brito, telefonava para me comunicar a morte.
Imediatamente, justifiquei ao Governador Germano Rigotto e aos demais membros da comitiva a necessidade de voltar para o Brasil ainda em tempo de participar das homenagens ao nosso Líder Brizola.
 Felizmente, consegui um plano de vôo Pequim-Frankfurt-São Paulo-Porto Alegre. Foram mais de trinta horas de viagem, mas consegui chegar por volta de 10 horas da manhã do dia 23 de junho, ainda em tempo de receber o corpo do Governador Leonel Brizola, no início da tarde, no Aeroporto Salgado Filho. Não poderia deixar de estar lá, porque, se uma só pessoa houvesse no Aeroporto Salgado Filho para receber o Governador Leonel Brizola, essa pessoa seria eu, haja vista os laços não só de liderado para líder que nos uniam, mas o respeito muito grande, pessoal, além de político que eu tinha com o Governador Leonel Brizola.
Acalentáramos uma relação muito próxima que se aprofundou desde 1994, quando me elegi pela primeira vez Deputado Estadual. Nossos contatos, desde aquela época, portanto, nos últimos dez anos, eram praticamente diários. Falamos por telefone na véspera de sua morte. Liguei para ele, de Pequim, porque estávamos vivendo o período das convenções partidárias e conversávamos sobre as alianças nas eleições municipais de Porto Alegre, do Rio de Janeiro e de outras capitais.
Ele estava bem, com a voz firme, dizia que se estava recuperando de uma indisposição que havia tido dias antes na cidade de Montevidéu. Lastimavelmente, na manhã seguinte, recebi a notícia da sua morte.
Meu primeiro contato pessoal com o Governador Leonel Brizola deu-se logo depois da sua chegada do exílio. Eu era Presidente do Centro Acadêmico André da Rocha, da Faculdade de Direito da UFRGS. Organizáramos um seminário intitulado Rumos da Oposição Brasileira.
 Nós, estudantes, com muita curiosidade, víamos o quadro político- partidário se formando. Nós, que havíamos crescido sob o bipartidarismo, estávamos sedentos por saber quais os partidos políticos que se reorganizariam com a reconquista da democracia no nosso País.
Trouxemos, então, para a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, os principais líderes nacionais dos partidos políticos que haviam-se reorganizado. Recordo-me de que no Plenário Farroupilha falou o líder Luiz Carlos Prestes sobre a reorganização do Partido Comunista. No Plenário João Neves da Fontoura, falou Leonel Brizola sobre a reorganização do PTB - Partido Trabalhista Brasileiro. Ainda não lhe haviam roubado a histórica sigla.
Era o ano de 1979, o Governador Leonel Brizola fez um pronunciamento sobre o que era o trabalhismo, os compromissos do trabalhismo, sobre sua trajetória histórica, sobre o Movimento de 64, enfim, sobre os grandes temas nacionais e internacionais. E eu, que, na época, tinha 19 anos de idade, era estudante, imediatamente me identifiquei com suas idéias, com o programa daquele Partido que se reorganizava, e, ali mesmo, naquela palestra, decidi que aquele seria o meu caminho político-partidário.
Em 1981, filiei-me ao Partido Democrático Trabalhista. Militei na juventude do Partido inicialmente, depois concorri a vereador, em 1982, nas primeiras eleições pós-Ditadura. Em 1986, assumi uma cadeira na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, ocasião em que tive oportunidade de prestar uma homenagem ao Governador Leonel Brizola.
Recordo bem o dia: era 27 de agosto de 1986. Essa data era muito significativa porque transcorriam 25 anos do Movimento da Legalidade. Aquele episódio histórico fez com que uma multidão tomasse a Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini, em defesa da Constituição, em defesa do regime democrático, que estava ameaçado porque as elites da época não queriam que o Vice-Presidente da República eleito, João Goulart, assumisse os comandos do destino deste País, uma vez que Jânio Quadros havia renunciado.
Foi o então Governador Leonel Brizola, jovem Governador, na época com 39 anos de idade, que comandou aquele Movimento histórico que acabou garantindo a posse do Presidente João Goulart. Ali Leonel Brizola projetou-se nacional e internacionalmente, porque aquele foi um dos maiores movimentos cívico-populares que já teve registro na nossa história. Foi um Movimento que ganhou consciências em todo o País e que acabou vitorioso, mesmo que seu brilho tivesse sido empanado pelo casuísmo do parlamentarismo.
De qualquer maneira, o golpe foi abortado, e João Goulart assumiu a Presidência da República, graças à coragem, à ousadia, à liderança, à capacidade de mobilização popular que teve o então jovem Governador Leonel Brizola.
Destaco, daquele histórico dia, um trecho do discurso que fez Leonel Brizola quando tomou conhecimento de que o Palácio Piratini estava na iminência de um bombardeio. A ordem de bombardeio partiu do 3.º Exército, e Leonel Brizola, no histórico pronunciamento, dirigindo-se ao povo gaúcho, disse o seguinte:
"Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste Palácio, numa demonstração de protesto contra essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui resistiremos até o fim. A morte é melhor do que vida sem honra, sem dignidade e sem glória".
 Essas foram as palavras corajosas do líder da Legalidade, Leonel Brizola, decisivas naquele momento histórico, para que as forças da reação e do conservadorismo recuassem e o Movimento triunfasse. A coragem e a liderança de Leonel Brizola estavam demonstradas para todo o País.
Honrado que fui com a condição de orador, distinguido pela família no túmulo do nosso Governador, no Município de São Borja, disse que Leonel Brizola tinha sido o maior Governador que o Rio Grande do Sul já teve. É verdade. Não foi a emoção do momento que me fez proferir aquelas palavras, mas os fatos históricos, suas obras, suas realizações, que atestam que aquela foi uma assertiva verdadeira. 
Me referi antes ao Movimento da Legalidade e tenho também de lembrar o maior plano de escolarização que este país já testemunhou. Foram 6.300 escolas construídas em apenas quatro anos de Governo. São quase 1.600 escolas por ano. Essa obra magnífica de um Governador apaixonado pela causa da educação lançou as bases para que o Rio Grande do Sul pudesse ser hoje o Estado que tem o melhor nível de qualidade de vida do País. Tenho certeza de que isso se deve àquelas escolas, pois fizeram com que fosse desprezível o índice de analfabetismo no Rio Grande do Sul comparado ao de outros Estados do País. Graças aos pesados investimentos que Leonel Brizola fez em educação, o Rio Grande do Sul tem atualmente essa condição ímpar no contexto nacional.
Leonel Brizola fez também uma reforma agrária que até os dias de hoje é considerada uma referência positiva. Está lá o Banhado do Colégio, no Município de Camaquã, eloqüentemente testemunhando que é possível fazer um plano de distribuição de terras que permita aos nossos trabalhadores vocacionados para a produção tirarem do seu pedaço de terra o seu sustento, assim contribuindo para o desenvolvimento do Estado e do País com os frutos do seu trabalho.
Foi no Governo de Leonel Brizola que tivemos a corajosa encampação das empresas multinacionais de energia elétrica e de telefonia que emperravam o processo de desenvolvimento econômico do nosso Estado. Corajosamente, desapropriou essas empresas, fundando a Companhia Estadual de Energia Elétrica - CEEE - e a Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações - CRT -, que foram fundamentais para o crescimento do nosso Estado ao longo das últimas décadas.
Poderia citar a Estrada da Produção, a Refinaria Alberto Pasqualini, a Aços Finos Piratini e tantas outras obras e realizações que fizeram com que o Governo Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul, fosse um Governo que marcou época. S. Exa. fez jus ao título de maior Governador do Estado do Rio Grande do Sul, atributo que lhe conferi sem exagero algum.
 A Legalidade, em 1961, apenas adiou o golpe que viria três anos depois. Mil novecentos e sessenta e quatro foi marcado pelo Golpe Militar. Naquela época, diversos cidadãos e cidadãs brasileiros foram perseguidos e tiveram de viver no exterior, como foi o caso de Leonel Brizola.
 A propósito, dificilmente alguém foi mais perseguido ou teve a sua vida mais virada ao avesso pela Ditadura Militar do que o ex-Governador Leonel Brizola, quando invadiram a sua casa, reviraram as suas gavetas e remexeram em seus objetos pessoais à procura de algo que pudesse comprometê-lo. Nada! Absolutamente nada encontraram que pudesse sequer arranhar a honrada vida pública ou privada deste homem que recém havia governado o Rio Grande.
Portanto, além de ser um líder corajoso e ousado, um administrador de mão cheia, inovador, Leonel Brizola tinha essa marca, a marca da honradez, da probidade. Era daqueles homens públicos com a característica da retidão de conduta. Numa época em que muitos políticos se satisfazem com as migalhas do poder, o exemplo de Leonel Brizola se agiganta, porque foi um homem que, por fidelidade aos seus princípios, rompeu com os governos que ajudou a eleger - no Rio de Janeiro, com Anthony Garotinho; no plano federal, com Luiz Inácio Lula da Silva, pois tais governantes haviam-se afastado daqueles compromissos que levaram Leonel Brizola a apoiá-los nas suas respectivas eleições. Rompeu com os Poderes Estadual e Federal para ficar em paz com a sua consciência e fiel aos seus compromissos e princípios.
O que nos conforta nesta hora é saber que Leonel Brizola morreu fazendo aquilo de que mais gostava, aquilo que sabia fazer: política. Um dia antes de sua morte, recebia lideranças políticas, mesmo acamado, no seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Como predisse em vida, morreu como um cavalo inglês, morreu na cancha, morreu peleando, o que nos conforta.
O que nos animou muito também foi a solidariedade, a comoção popular que testemunhamos não só no Rio de Janeiro - Estado que governou por duas vezes e onde deixou talvez sua maior marca registrada, os CIEPs, as escolas de turno integral -, mas também em Porto Alegre e na cidade de São Borja, onde foi enterrado.
As multidões vieram se despedir do grande líder que, antes de tudo, era um patriota, outra de suas marcas registradas. A missa de sétimo dia, realizada na Igreja da Candelária foi concluída com o Hino da Independência, que Brizola costumava puxar pessoalmente ao encerrar os nossos principais atos partidários. Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil -, cantava com uma emoção que contagiava, contaminando a todos com seu patriotismo, com seu compromisso inabalável de defesa da soberania nacional.
O dia 21 de junho de 2004 vai ficar marcado na história do Brasil, assim como ficaram o 24 de agosto de 1954, quando nos deixou o grande estadista Getúlio Vargas, e o 06 de dezembro de 1976, quando nos deixou João Goulart. O 21 de junho de 2004 entrou definitivamente para a história nacional como a data em que partiu um dos nossos maiores líderes, daqueles que se vão, mas deixam para a eternidade um rastro de realizações e bons exemplos, guia seguro para quem quer fazer política com dignidade, coerência e firmeza de princípios, marcas registradas de Leonel de Moura Brizola.
(Depoimento em janeiro de 2005)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Trajano Ribeiro, em missa para Brizola no Rio, analisa manifestações de rua

Os nove anos da morte de Brizola foram lembrados na última sexta-feira (21/6) no Rio de Janeiro com uma missa na Igreja de São Benedito dos Homens Pretos, na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro – igreja frequentada pelo próprio Brizola - em uma solenidade marcada pela direção do PDT-RJ para lembrar a data.
Estiveram presentes companheiros de partido, dirigentes do PDT-RJ e também muitos militantes do partido – veteranos de várias campanhas lideradas por Leonel Brizola no Rio de Janeiro, desde a sua espetacular eleição a deputado federal em 1962, aos dois governos estaduais que conquistou, nas eleições de 1982 e 1991, além de todas as outras campanhas que protagonizou até nos deixar, em junho de 2004. Um dos presentes foi o deputado Bruno Correia.
Os participantes da missa – Carlos Lupi, presidente nacional e estadual do PDT não pode participar por ter viajado para São Borja, também para homenagear Brizola – tiveram a oportunidade de ouvir as palavras de Trajano Ribeiro, um dos fundadores do PDT e ex-integrante do secretariado de Brizola, que fez uma análise atualíssima dos movimentos de rua que vem ocorrendo no Brasil.
Confiram a íntegra da fala de Trajano Ribeiro, gravada e transcrita por Apio Gomes:
“Que bom que vieram tantos para a missa do companheiro Brizola. Queria saudar todos os companheiros.
“O país vive um momento diferente. E, nós, sempre nessas ocasiões, nos perguntamos “o que pensaria, e o que diria o nosso líder Brizola?”.
“E, como não temos uma resposta cabal, nos damos conta de quanta falta ele nos faz para interpretar e enfrentar esses momentos – eu não diria de instabilidade, mas momentos de perplexidade.
“Há homens que nascem com uma chama da justiça. Felizmente, o nosso Partido foi fundado e reuniu os melhores destes homens.
“Brizola é o mais contemporâneo, o mais recente e talvez o mais lutador de todos eles. Ele não admitia a injustiça com o nosso povo. Ele dedicou a vida inteira dele a combater a desigualdade, a discriminação, a injustiça, a exclusão; e, principalmente, a defender o direito de cada criança brasileira ser um cidadão pleno, no exercício de seus direitos, no desenvolvimento das suas capacidades.
“Hoje, com este quadro que o país vive, talvez Brizola usasse uma expressão que ele adotava muito em situações semelhantes, que reflete aquela situação dos tropeiros que vão levando a tropa; e que, quando o sol cai, acampam, fazem uma fogueira e põem uma chaleira para esquentar água para o chimarrão; de repente, vai lá um dos tropeiros e tenta encher a cuia, mas não sai água da chaleira; aí – o que é… o que não é… –, abrem a chaleira: um outro tropeiro, inadvertidamente, colocou uma batata para cozinhar na chaleira. Então, Brizola dizia: “Tem batata nesta chaleira!…”.
“Eu advertiria os companheiros, acho que fielmente interpretando o que ele pensaria. E ouso fazer isto, pelos anos de convívio que tive com ele. Isto que está acontecendo aí é o renascimento das ruas, é a mobilização da nossa juventude, por tanto tempo apática. Mas – cuidado! – porque pode ter uma batata nessa chaleira.
“Preocupa-me muito um movimento que não tem lideranças; preocupa-me muito um movimento que não tem programa, não tem, não tem plataforma, não tem palavra de ordem; e que, na ausência destas coisas, emite, na voz de milhares e milhares, palavrões e outras frases que não têm uma utilidade para o nosso povo.
“Mas isso não deve ser ignorado.
“Mas precisa – principalmente nós, que temos a responsabilidade histórica de levar o pensamento de Vargas, de Jango e de Leonel Brizola –, exige de nós uma profunda reflexão.
“Eu vou pedir ao companheiro Carlos Lupi, o nosso grande presidente, que convoque o Partido para uma profunda reflexão sobre o que está acontecendo. Porque não me venham dizer que os partidos não existem mais, porque a sociedade não pode sobreviver, no seu estágio atual de desenvolvimento, sem os partidos.
“O que houve foi um processo – que a própria estrutura institucional do país provocou – de esvaziamento dos partidos; de esvaziamento dos programas dos partidos, em benefício dos indivíduos que, eventualmente, representam os partidos.
“Então, nós temos obrigação de refletir; e temos obrigação de dizer ao nosso povo o que nós achamos se seja a interpretação correta, e o rumo correto a seguir.
“Isto seria o que o companheiro Brizola faria: convocaria o Partido e iniciaria uma ampla discussão; sempre preocupado com eventual utilização do idealismo da nossa juventude para fins contrários à democracia e contrários aos interesses do nosso povo.
“Por isto, companheiros, rezamos hoje aqui, debaixo deste teto daqueles que representam aqueles a quem o nosso Partido dedica um carinho especial – que são os negros brasileiros, que forjaram grande parte desta nação; e que são responsáveis, entre outras coisas, pela manutenção, salvaguarda e garantia de uma cultura própria do povo brasileiro, que foi haurida, fundamentalmente, da influência do povo africano, que veio aqui doar seu sangue, o seu suor.
“Muito obrigado”.

domingo, 23 de junho de 2013

Partido Democrático Trabalhista - Nasce o novo Trabalhismo

O PDT - Partido Democrático Trabalhista - foi fundado por Leonel Brizola, no exílio, em Lisboa, em 1979, mas sua herança histórica vem da Revolução de 30, com Getúlio Vargas, e depois João Goulart.
O PDT surgiu em 17 de junho de 1979, em Lisboa, fruto do Encontro dos Trabalhistas no Brasil com os Trabalhistas no Exílio, liderados por Leonel Brizola. Seu objetivo era reavivar o PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, criado por Getúlio Vargas e presidido por João Goulart, e proscrito pelo Golpe de 1964.
Desse encontro, ao qual esteve presente o líder português Mário Soares, representando a Internacional Socialista, saiu a Carta de Lisboa, que definiu as bases do novo partido. "O novo Trabalhismo" - dizia o documento - "contempla a propriedade privada condicionando seu uso às exigências do bem-estar social. Defende a intervenção do Estado na economia, mas como poder normativo, uma proposta sindical baseada na liberdade e na autonomia sindicais e uma sociedade socialista e democrática.
Uma manobra jurídica, patrocinada pela ditadura, no entanto, conferiu a sigla a um grupo de aventureiros e adesistas, que se aliou às elites dominantes, voltando-se contra os interesses dos trabalhadores.
Leonel Brizola, depois de 15 anos de desterro, Doutel de Andrade, Darcy Ribeiro e outros trabalhistas históricos já tinham retornado ao Brasil, quando a Justiça Eleitoral entregou, em 12 de maio de 1980, o PTB àquele grupo. "Consumou-se o esbulho", denunciou Brizola, chorando e rasgando diante da televisão um papel sobre o qual escrevera aquelas três letras, que durante tanto tempo simbolizara as lutas sociais no Brasil.
"Uma sórdida manobra governamental " - disse ele - "conseguiu usurpar a nossa sigla para entregá-la a um pequeno grupo de subservientes ao poder... O objetivo dessa trama é impedir a formação de um partido popular e converter o PTB em instrumento de engodo para as classes trabalhadoras".
Uma semana depois, nos dias 17 e 18 de maio, os trabalhistas autênticos reuniam-se no Palácio Tiradentes, sede da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, para o Encontro Nacional dos Trabalhistas, que, contou com a participação de mais de mil pessoas. Lá foi anunciada a adoção de uma nova sigla para o partido - PDT. No dia 25 de maio, outra reunião, desta vez na ABI - Associação Brasileira de Imprensa- , na Cinelândia, aprovou o programa, o manifesto e os estatutos do Partido Democrático Trabalhista.
O PDT passou então a dar cumprimento ao enunciado da Carta de Lisboa, organizando-se, inicialmente, em nove Estados, sobretudo a partir do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O autoritarismo, ainda vigente, baixou normas draconianas para favorecer o partido do poder - PDS, antiga Arena, hoje PPB - e restringir brutalmente os partidos de oposição. Não obstante, na primeira eleição democrática de 1982, o PDT elegeu Brizola governador do Rio de Janeiro, dois senadores - um no Rio e outro em Brasília -, 24 deputados federais, credenciando-se como uma das principais forças políticas do país.
Em 1983, antes da posse de Brizola, os pedetistas fazem nova reunião nacional, em que tiram a Carta de Mendes, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro que abrigou o encontro. Neste documento, eles traçam as diretrizes da ação política para a realidade do novo Brasil saído das urnas.
O surto neoliberal que se abateria sobre o mundo, a partir dali, entretanto, retardaria a ascensão do Partido ao poder nacional, com o povo assistindo impotente ao desmonte desse sistema cruel e desumano, credenciando-se junto ao povo.